Amendoeira em Flor, de Van Gogh: a pintura feita para um novo Vincent
No dia 31 de janeiro de 1890, Theo van Gogh escreveu ao irmão com uma notícia que esperava havia meses.
Jo havia dado à luz.
Era um menino.
E ele receberia um nome bastante conhecido naquela família:
Vincent Willem van Gogh.
Theo explicou ao irmão que haviam decidido batizar o filho em sua homenagem e acrescentou um desejo: esperava que o menino fosse tão determinado e corajoso quanto ele.
A carta chegou a Saint-Rémy, no sul da França, onde Vincent vivia naquele momento.
E a reação do pintor foi quase imediata.
Ele começou a trabalhar em um presente para a criança.
Não escolheu um retrato. Não pintou um berço. Nem uma mãe com seu bebê.
Escolheu apenas alguns galhos.
Galhos cobertos de flores brancas contra um céu azul.
Dessa notícia familiar surgiria uma das pinturas mais reconhecíveis de toda a carreira de Van Gogh: Amendoeira em Flor.
Antes da pintura, houve uma pequena surpresa
Existe um detalhe curioso nessa história.
Vincent ficou profundamente feliz com o nascimento do sobrinho.
Mas o nome escolhido não foi exatamente o que ele teria escolhido.
Em 1º de fevereiro, respondendo a Theo, ele contou o quanto a notícia lhe havia feito bem. Dias depois, escrevendo à mãe, confessaria que preferia que o menino tivesse recebido o nome do pai deles.
Mesmo assim, completou: como a decisão já estava tomada, havia começado imediatamente uma pintura para o bebê.
É um detalhe pequeno, mas deixa a história muito mais humana.
Van Gogh não precisava que a criança carregasse seu nome. O presente veio antes de qualquer vaidade.
Amendoeira em Flor, de Vincent van Gogh
Título: Almond Blossom / Amendoeira em Flor
Artista: Vincent van Gogh
Data: fevereiro de 1890
Local: Saint-Rémy-de-Provence, França
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 73,3 × 92,4 cm
Localização atual: Van Gogh Museum, Amsterdã
Mas esses dados não explicam por que Van Gogh escolheu justamente uma amendoeira.
Para isso, precisamos olhar para o calendário.
A amendoeira floresce quando o inverno ainda nem terminou
Em fevereiro de 1890, Van Gogh escreveu à mãe que as amendoeiras estavam começando a florescer por toda parte em Saint-Rémy.
Naquele mesmo dia, descreveu a pintura que fazia para o sobrinho: grandes galhos de flores brancas sobre um céu azul.
A escolha tinha um significado perfeito para um nascimento.
A amendoeira está entre as árvores que florescem mais cedo. Enquanto boa parte da paisagem ainda parece viver o inverno, seus galhos já começam a anunciar aquilo que vem depois.
A primavera.
O próprio Van Gogh Museum relaciona a amendoeira ao começo da primavera e à ideia de uma nova vida.
E aí a pintura deixa de ser apenas uma imagem bonita de flores.
Cada botão ainda fechado, cada flor recém-aberta e cada galho que avança pelo céu passa a fazer parte da mesma ideia: alguma coisa está começando.
Mas onde está a árvore?
Essa é uma das coisas mais interessantes de Amendoeira em Flor.
Van Gogh pinta uma árvore sem realmente mostrar a árvore.
Não vemos o chão. Não vemos raízes. Não vemos a paisagem ao redor. Não existe horizonte.
Existem apenas galhos que entram e saem da pintura.
É quase como se estivéssemos deitados olhando diretamente para o céu.
E essa composição não surgiu por acaso.
Ela revela uma das grandes obsessões de Van Gogh: o Japão.
O Japão que Van Gogh nunca conheceu
Van Gogh nunca viajou ao Japão.
Mesmo assim, o Japão teve enorme influência sobre a maneira como passou a enxergar imagens.
Ele e Theo colecionaram centenas de gravuras japonesas. Van Gogh admirava especialmente áreas de cor mais planas, contornos definidos, enquadramentos inesperados e cortes abruptos.
Em Amendoeira em Flor, essa influência fica difícil de ignorar.
Os galhos atravessam o quadro. Alguns desaparecem pelas extremidades. Não há perspectiva tradicional conduzindo o olhar para um ponto no fundo.
O céu funciona quase como uma grande área de cor.
É uma pintura francesa feita por um holandês, inspirada visualmente pelo Japão e criada para uma criança que vivia em Paris.
Poucos elementos. Muita história.
E repare nas flores: nem todas estão abertas
Esse é um detalhe fácil de perder quando vemos a obra rapidamente.
Van Gogh não pinta uma árvore simplesmente coberta por flores idênticas.
Algumas estão totalmente abertas. Outras ainda são pequenos botões.
Isso dá à pintura uma sensação quase temporal.
A árvore não parece estar simplesmente “em flor”. Ela parece estar florescendo.
Existe uma diferença.
Uma imagem mostra um estado. A outra sugere transformação.
E para uma pintura destinada a celebrar um nascimento, dificilmente poderia haver escolha melhor.
Van Gogh queria colocar o quadro no quarto do bebê
Quando escreveu à mãe em 19 de fevereiro, Vincent explicou que estava fazendo a pintura para ser pendurada no quarto de Theo e Jo.
Imagine a cena.
Hoje Amendoeira em Flor fica em um museu visitado por pessoas de todo o mundo.
Mas ela não nasceu para um museu.
Não foi concebida para um marchand. Não foi produzida pensando em uma grande exposição.
Era um presente de família.
A família colocou Amendoeira em Flor acima do piano
Em junho de 1890, já fora de Saint-Rémy, Vincent escreveu à irmã Willemien.
Na carta, comentou que havia levado para Theo e Jo a grande pintura feita para o pequeno Vincent.
E informou onde ela estava:
acima do piano.
É um detalhe maravilhoso justamente por ser tão cotidiano.
Antes de ser “uma obra-prima de Van Gogh”, aquela pintura foi um objeto dentro de uma casa.
Theo passava por ela. Jo passava por ela. O pequeno Vincent cresceria cercado pelas obras do tio.
Talvez ouvisse música naquele piano enquanto a amendoeira continuava florescendo silenciosamente na parede.
E essa criança acabaria desempenhando um papel que ninguém poderia imaginar em 1890.
O bebê Vincent cresceu
O menino para quem Amendoeira em Flor foi pintada era Vincent Willem van Gogh.
Filho de Theo e Jo. Sobrinho e afilhado do pintor.
Van Gogh morreria poucos meses depois.
Theo morreria no início de 1891.
O menino mal teria oportunidade de conhecer qualquer um dos dois.
Mas a história de Vincent van Gogh não terminaria com a morte do artista.
Uma parte decisiva dela passaria justamente pelas pessoas que ficaram.
Primeiro Jo protegeu o legado
Depois da morte de Theo, Jo van Gogh-Bonger ficou responsável por uma enorme coleção de pinturas, desenhos, cartas e documentos.
Durante décadas, trabalhou para preservar e divulgar a obra do cunhado.
Ela organizou exposições, promoveu suas pinturas, preservou sua correspondência e manteve reunida uma parte extraordinária do acervo familiar.
Depois, essa responsabilidade passaria para seu filho.
Para aquele mesmo bebê.
O presente acabou voltando para quem o inspirou
Vincent Willem tornou-se engenheiro, mas a coleção do tio permaneceu parte central de sua vida.
Em 1960, participou da criação da Vincent van Gogh Foundation.
Dois anos depois, chegou a um acordo com o Estado neerlandês: a coleção familiar seria transferida para a fundação e o governo construiria um museu para preservá-la e torná-la permanentemente acessível ao público.
Em 2 de junho de 1973, esse projeto finalmente se concretizou.
O Van Gogh Museum abriu suas portas em Amsterdã.
Vincent Willem tinha então 83 anos.
E entre as obras preservadas pela fundação está justamente aquela que havia sido pintada para celebrar seu nascimento: Amendoeira em Flor.
A história praticamente fecha um círculo.
Uma pintura sobre começo feita perto do fim
Existe ainda uma camada impossível de ignorar quando conhecemos a data.
Amendoeira em Flor foi pintada em fevereiro de 1890.
Van Gogh morreria em julho daquele mesmo ano.
Mas é importante não deixar que aquilo que sabemos sobre o futuro transforme a pintura em algo que ela não era naquele momento.
Van Gogh não a concebeu como despedida.
Não estava pintando a morte.
Estava celebrando exatamente o contrário.
Nascimento.
E o azul?
Talvez a primeira coisa que reconheçamos na pintura nem sejam as flores.
É o fundo.
Um azul luminoso ocupa praticamente toda a tela.
Sem montanhas. Sem nuvens. Sem horizonte.
Van Gogh elimina quase qualquer elemento que possa disputar nossa atenção com os galhos.
Por isso a árvore parece flutuar.
As flores claras avançam contra o azul.
E os contornos dos galhos organizam toda a superfície quase como linhas de um desenho.
Amendoeira em Flor parece simples porque Van Gogh retirou quase tudo o que não precisava estar ali.
Não porque a composição seja simples.
Van Gogh já pintava árvores em flor
As flores de 1890 também não apareceram do nada.
Desde sua chegada ao sul da França, Van Gogh havia se interessado intensamente pelos pomares floridos.
Na primavera de 1888, em Arles, pintou pessegueiros, pereiras, ameixeiras e outros pomares em flor.
A primavera oferecia justamente algumas das coisas que mais o atraíam naquele período: cor renovada, luz intensa e transformação rápida da paisagem.
A diferença é que, em Amendoeira em Flor, dois anos depois, aquele motivo ganha uma razão pessoal muito específica.
A árvore não é apenas uma árvore em flor.
Ela está ligada a uma criança.
Então, o que significa Amendoeira em Flor?
Neste caso, não precisamos inventar um grande código secreto.
Temos as cartas.
Sabemos para quem a obra foi feita.
Sabemos quando foi pintada.
Sabemos que Van Gogh mencionou explicitamente o nascimento do sobrinho enquanto trabalhava nela.
O significado principal está diante de nós:
renovação.
nascimento.
começo.
Mas existe algo que Van Gogh jamais poderia ter planejado.
A criança para quem ele pintou aquela promessa de futuro cresceu.
Herdou parte da responsabilidade pela obra do tio.
Ajudou a manter a coleção reunida.
Participou da criação da fundação.
E tornou possível o museu que hoje preserva Amendoeira em Flor para milhões de pessoas.
Em 1890, Van Gogh pintou um quadro para receber um novo Vincent no mundo.
Décadas depois, aquele novo Vincent ajudaria a garantir que o primeiro nunca fosse esquecido.
Curadoria e pesquisa: Warlley Sousa
Referências
- Vincent van Gogh Letters — Carta 847, Theo a Vincent, 31 jan. 1890
- Vincent van Gogh Letters — Carta 855, Vincent à mãe, 19 fev. 1890
- Vincent van Gogh Letters — Carta 879, Vincent a Willemien, 5 jun. 1890
- Van Gogh Museum, Amsterdã
- Van Gogh Museum / Google Arts & Culture — Flowering Plum Orchard (after Hiroshige)