Primavera, de Pierre-Auguste Cot: o quadro que “viralizou” no século XIX
Um casal em um balanço. Um vestido quase transparente. Um instante que parece ter sido interrompido no meio de uma paixão.
Em 1873, Pierre-Auguste Cot apresentou essa cena no Salon de Paris.
E ela explodiu.
Primavera se tornaria o maior sucesso da carreira do pintor. A imagem foi admirada, copiada e reproduzida em gravuras, leques, porcelanas e tapeçarias. Muito antes de pôsteres, Pinterest ou Instagram, aquela pintura já fazia algo que conhecemos muito bem hoje:
ela viralizou.
“Viralizou” aqui é uma comparação moderna para descrever a enorme circulação da imagem no século XIX.
Mas existe uma pergunta escondida no meio desse sucesso.
Por que uma pintura de dois jovens apaixonados em um balanço se chama Primavera?
A resposta começa em uma frase que acompanhava a obra quando ela apareceu diante do público pela primeira vez.
A pista estava no catálogo do Salon
No catálogo oficial do Salon de Paris de 1873, Le Printemps aparece como a obra nº 365 de Pierre-Auguste Cot.
Logo abaixo do título, foram impressos versos em italiano:
O primavera! gioventù dell'anno!
O gioventù! primavera della vita!
Em português, a ideia é simples:
Primavera, juventude do ano.
Juventude, primavera da vida.
E de repente o quadro muda.
Cot não estava apenas pintando uma estação.
Estava pintando uma idade da vida.
A vegetação floresce porque eles também estão florescendo. A primavera está nas árvores, mas principalmente nos dois.
E existe outra curiosidade: esses versos já eram antigos quando Cot os utilizou. A expressão vem de um texto atribuído ao poeta italiano Giovanni Battista Guarini, do século XVI, que também foi musicado por Claudio Monteverdi no fim do Renascimento.
Dentro de uma pintura francesa de 1873 existe, portanto, uma pequena ponte com a poesia e a música italianas de quase três séculos antes.
Primavera, de Pierre-Auguste Cot
Artista: Pierre-Auguste Cot
Título original: Le Printemps / Springtime
Data: 1873
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 211,6 × 127,8 cm
Localização atual: Metropolitan Museum of Art, Nova York
Coleção: European Paintings
E as dimensões importam.
Nas reproduções da internet, Primavera pode parecer uma pintura delicada. Na realidade, ela tem mais de 2,11 metros de altura.
Diante dela, os personagens estão praticamente em escala humana.
Parece inocente. Mas observe novamente.
A primeira impressão é simples: dois jovens estão juntos em um balanço, cercados por uma vegetação exuberante.
Ele segura as cordas. Ela passa os braços ao redor de seu pescoço. Os corpos estão tão próximos que praticamente formam uma única massa dentro da composição.
Mas há algo curioso na maneira como Cot constrói essa intimidade.
Não sabemos exatamente quem eles são.
Não existe uma narrativa mitológica claramente identificável. Nenhum Cupido aparece para explicar o amor. Nenhuma Vênus precisa estar presente.
Cot simplesmente coloca dois jovens naquele lugar e deixa que o espectador entenda o restante.
O Metropolitan Museum descreve a dupla como claramente flertante e relaciona a pintura ao estilo acadêmico que Cot desenvolveu em contato com mestres como William-Adolphe Bouguereau e Alexandre Cabanel.
O vestido quase desaparece
O tecido que cobre a jovem é extraordinariamente fino.
Cot consegue mostrar as dobras da roupa e, ao mesmo tempo, deixar o corpo perceptível por baixo dela.
Isso cria uma ambiguidade interessante.
A cena tem a aparência de um idílio clássico. As roupas remetem a um passado idealizado. A floresta parece distante do mundo moderno. Tudo parece elegante e quase inocente.
Mas a pintura é profundamente sensual.
Cot não precisa mostrar um beijo. A proximidade dos corpos faz quase todo o trabalho.
Talvez o balanço seja o detalhe mais importante
Imagine a mesma cena com os dois sentados em um banco.
Seria completamente diferente.
O balanço coloca tudo em movimento. As roupas parecem acompanhar o deslocamento. Os corpos precisam permanecer juntos. As cordas criam duas linhas verticais que enquadram o casal.
E, por alguns segundos, os dois parecem suspensos.
Não apenas acima do chão.
Suspensos do restante do mundo.
Não vemos uma cidade. Não vemos outras pessoas. Não vemos família, trabalho ou qualquer preocupação cotidiana.
Existe apenas aquele pequeno intervalo entre uma ida e outra do balanço.
Cot pintou justamente uma coisa impossível de conservar: a sensação de que aquele momento poderia durar para sempre.
Mas não poderia.
E talvez seja essa a parte mais interessante da palavra Primavera.
A primavera passa.
A juventude também.
“Bêbados de primeiro amor”
O primeiro proprietário da pintura foi o empresário e colecionador norte-americano John Wolfe.
Ele não escondeu a obra em algum corredor de sua casa. Primavera ganhou uma posição de destaque em sua mansão de Manhattan.
Uma descrição feita na época resumiu os personagens de uma maneira difícil de superar: eles foram chamados de jovens “bêbados de primeiro amor”.
É provavelmente uma das melhores chaves para entender o quadro.
Porque nada ali parece maduro. Não existe estabilidade. Não existe história compartilhada.
Existe descoberta.
É o amor no momento em que ainda parece inteiramente novo.
E então Primavera começou a aparecer em todo lugar
O sucesso no Salon de 1873 não ficou restrito aos visitantes da exposição.
A imagem começou a circular.
O Metropolitan Museum registra reproduções em gravuras, leques, porcelanas e tapeçarias.
Em 1875, apenas dois anos depois da apresentação do quadro, Amédée e Eugène Varin já haviam produzido uma gravura baseada em Primavera.
Décadas antes de uma imagem poder ser compartilhada com um toque na tela, Primavera já tinha encontrado outra maneira de viajar.
Ela se tornou uma imagem reconhecível fora do lugar onde nasceu.
O sucesso foi tão grande que acabou levando a outro quadro
Sete anos depois de Primavera, surge uma espécie de continuação involuntária dessa história.
A prima de John Wolfe, Catharine Lorillard Wolfe, encomendou uma nova pintura a Pierre-Auguste Cot.
Em 1880, Cot apresentou The Storm, ou A Tempestade.
Mais uma vez temos um jovem casal.
Mas agora tudo mudou.
Não existe balanço. Não existe tranquilidade. Eles estão correndo. O tecido se movimenta violentamente. A atmosfera que em Primavera parecia protegê-los agora ameaça os dois.
As duas pinturas nunca foram planejadas como uma série.
Mesmo assim, um estudo publicado pelo Metropolitan Museum descreveu-as como uma espécie de par espiritual.
E vistas juntas, é difícil não construir uma história:
Primavera: quando o amor começa.
A Tempestade: quando os dois precisam atravessar alguma coisa juntos.
Mas durante décadas ninguém sabia onde Primavera estava
A história fica mais estranha aqui.
Primavera havia sido tão conhecida no século XIX que sua imagem circulou em diversos formatos.
Mesmo assim, a pintura original desapareceu do radar.
Entre 1903 e 1938, ela ficou em empréstimo prolongado no Brooklyn Museum. Depois disso, sua localização deixou de ser clara.
Quando o historiador James Henry Rubin publicou um estudo sobre Pierre-Auguste Cot no Metropolitan Museum Journal, em 1980, tratou Primavera como uma obra cuja localização era então desconhecida.
Pense na ironia.
Uma imagem reproduzida em gravuras, porcelanas, tapeçarias e outros objetos...
mas o quadro original havia desaparecido do radar.
Hoje sabemos onde ele está.
Em 2012, Steven e Alexandra Cohen doaram Primavera ao Metropolitan Museum of Art. A pintura passou a integrar oficialmente a coleção de Pinturas Europeias do museu.
Então, afinal, o que significa Primavera?
Não existe necessidade de procurar um símbolo escondido em cada folha da floresta.
A resposta provavelmente está bem diante de nós.
O título não fala apenas sobre a estação.
Fala sobre eles.
A juventude aparece como uma primavera particular da existência: intensa, bonita e inevitavelmente passageira.
Por isso Cot coloca seus personagens cercados por uma natureza exuberante.
Por isso escolhe o movimento do balanço.
Por isso tudo parece tão vivo.
E por isso os versos apresentados junto à pintura em 1873 eram tão importantes:
a primavera é a juventude do ano; a juventude é a primavera da vida.
Talvez seja também por isso que Primavera tenha sobrevivido tão bem ao próprio tempo.
Mudaram os salões. Mudaram as roupas. Mudaram as maneiras de uma imagem se espalhar pelo mundo.
Mas a sensação que Cot tentou capturar continua imediatamente reconhecível:
aquele breve período em que alguma coisa está apenas começando e, justamente por isso, parece que nunca vai acabar.
Curadoria e pesquisa: Warlley Sousa
Referências
- The Metropolitan Museum of Art — Springtime, Pierre-Auguste Cot
- The Metropolitan Museum of Art — The Storm, Pierre-Auguste Cot
- James Henry Rubin — Pierre-Auguste Cot's The Storm, Metropolitan Museum Journal
- The Metropolitan Museum of Art — cromolitografia baseada em Springtime
- LiederNet Archive — texto de “O primavera! gioventù dell'anno!”
- Wikimedia Commons — fontes das imagens históricas e retratos utilizados